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Mardi, 22 mai 2007

A extrema-direita, a extrema-esquerda e os islamistas

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A extrema-direita, a extrema-esquerda e os islamistas

Desde o começo da segunda Intifada Al Aqsa, em Setembro de 2000; depois do 11 de Setembro de 2001, que selou o fim da inviolabilidade do santuário estratégico americano; e, sobretudo, desde a segunda crise iraquiana, que se soldou pelo desmantelamento do regime de Saddam Hussein, pode-se verificar, por todo lado, no Ocidente, a emergência de um eixo VERMELHO-CASTANHO-VERDE (o vermelho de extrema-esquerda, o castanho de extrema-direita e o verde do islamismo). Estes diferentes elementos têm como objectivo comum combater estas novas figuras do Mal, que seriam a América, Israel, «o imperialismo» e mesmo o Ocidente no seu todo.

As alianças objectivas entre estas as três ideologias, como veremos, não datam de ontem. Mas é inegável que os acontecimentos do princípio deste século contribuíram particularmente para a sua colusão. Com efeito, a utilização que George W. Bush fez, no dia seguinte ao 11 de Setembro, do termo «cruzada», foi apercebida como uma provocação, tanto nos meios anticlericais de extrema-esquerda e de extrema-direita como nos meios islâmicos. Donde a aproximação sempre cada vez mais significativa entre, de uma parte, os nostálgicos dos dois primeiros totalitarismos – os Castanhos e os Vermelhos – e, de outra parte, os protagonistas do islamismo revolucionário. Estes últimos pretendem defender as massas árabes «ocupadas», bem como os pobres, os fracos, os «humilhados do Terceiro Mundo, vítimas das novas Cruzadas judaico-cristãs «imperialistas».


As recentes tomadas de posição públicas do célebre terrorista Carlos, entre outros, vão claramente neste sentido (1). É verdade que o islamismo, terceiro totalitarismo depois do nazismo e do comunismo, responde, de uma certa maneira, às aspirações destes dois predecessores: ao aconselhar a luta das civilizações e das religiões e, em seguida, ao declarar a guerra ao mundo judaico-cristão em nome dos «deserdados» do resto do planeta, seduz tanto com os nostálgicos do terceiro Reich pagão, decididos a erradicar o judaísmo e o cristianismo, como os partidários da foice e do martelo, determinados a lutar contra o Ocidente «burguês» e «capitalista». Centro nevrálgico deste sistema odioso: Manhattan, «quartel-general planetário dos mercenários da guerra económica e financeira que entrega a América ao mundo», segundo as palavras de Carlos (2). Não espanta, pois, desde essa altura, ver os Castanhos, os Vermelhos e os Verdes a felicitarem-se mutuamente por causa do drama de 11 de Setembro de 2001 e a identificar Bin Laden como um novo David, oposto ao Golias imperial «américo-sionista». Também não surpreende que se veja convergir o entusiasmo activista destes três movimentos totalitários em torno da luta «heróica» levada a cabo, depois de Março de 2003, pelos últimos rebeldes baasistas e pelos islamistas xiitas do Iraque, contra a ocupação americana da Mesopotâmia.
Evidentemente, este eixo vermelho-castanho-verde do ódio «anti-hegemónico» e «anti-imperialista» reforçou-se após 1990 e depois da queda da União Soviética. Esta associação paradoxal neototalitária conheceu o seu apogeu na sequência do 11 de Setembro e, sobretudo, durante o Inverno e a Primavera de 2003, graças à vasta campanha antiamericanista levada a cabo no mundo ocidental pelos opositores à guerra contra o regime de Saddam. Esta junção de totalitarismos vermelho, castanho e verte em redor da causa dos mártires palestinianos, iraquianos e afegãos, assim como a figura revolucionária de Oussama Bin Laden, confirma a liderança, a partir de então incontestada, do islamismo revolucionário. Este passa, então, a exercer um verdadeiro fascínio nas outras opções totalitárias vencidas pela História (o nazismo e o comunismo) e, por isso, condenadas a reciclarem-se ou a juntarem-se à revolução islamista para prosseguirem o seu combate entre as democracias liberais.

Do 11 de Setembro à segunda guerra do Golfo
Se seguirmos o fio à meada da oposição ao «imperialismo ianque», apercebemo-nos de que os meios anti-sionistas e antiamericanos que encontraram circunstâncias atenuantes no atentado de 11 de Setembro são aquele que tentam, hoje em dia, absolver o terrorismo islamista – quer se trate da gesta «binladeniana» no mundo inteiro, quer se trate das atitudes do Hamas e da Jihad islâmica na Palestina. Hipnotizados pela queda das Torres Gémeas – terrível ilustração do poder do islamismo radical – , os ideólogos terceiro-mundistas e anti-imperialistas de extrema-esquerda e outros «alter-mundialistas» foram os mais veementes a fustigar a intervenção americana no Afeganistão. Foram também eles que organizaram, um ano mais tarde, as mais virulentas manifestações «pacifistas» contra a intervenção no Iraque, manifestações conduzidas, igualmente, em nome das «vítimas do sionismo». É assim que Toni Negri, ex-ideólogo das Brigadas Vermelhas e figura de proa do movimento No Global, declarou, em Setembro de 2001, que a sua compaixão não passava dos «sem-papéis» desaparecidos com as Torres Gémeas. O linguista trotskista americano Noam Chomsky, bem conhecido pelas suas atitudes violentamente anti-israelitas, denunciava, por seu lado, no atentado de 11 de Setembro, uma «impostura planetária», uma enésima manifestação fascizante do «imperialismo americano». Pior: imputava a «cólera dos islamistas» às provocações «racistas» do Estado Judaico. Quanto ao chefe de redacção marxista do Monde Diplomatique, Alain Gresh, filho do célebre intelectual pró-soviético Henri Curiel, justifica, num livro escrito com o neto do criador da Irmandade Muçulmana, Tariq Ramadan, a opção terrorista dos palestinianos em nome do anti-sionismo e do «anti-colonialismo» (3). Dois acontecimentos recentes mais graves merecem uma atenção especial: em primeiro lugar, as exortações dos líderes das novas Brigadas Vermelhas italianas e do célebre terrorista «vermelho» Carlos para que se apoie o combate do Hamas e da al-Qaeda; depois, o apelo da quase totalidade dos dirigentes neonazis ocidentais para que se louve o «heroísmo» do Hezbollah e de Bin Laden na sua luta contra os Judeus e os Americanos. Consequência lógica destas formas de congregação paralelas: Carlos abraça um «islamismo revolucionário chamado para limpar o mundo». Islamismo que «cumpre a síntese dinâmica das diferentes correntes (a luta anti-colonialista, anti-imperialista, anti-sionista) e vai buscar os seus modelos de acção ao socialismo, ao marxismo e ao nacionalismo» (4); e, ao mesmo tempo, o líder carismático do movimento neo-nazi inglês, David Myatt, que se tornou Abdul Aziz Ibn Myatt, convida os nostálgicos do Eixo e todos os inimigos dos sionistas a abraçar, tal como ele, a jihad, a «verdadeira religião marcial» (5), a que luta da maneira mais eficaz contra os Judeus e os Americanos. Outro sinal desta reaproximação: a 3 de Abril de 2003, o salafista londrino Omar Bakri Mohamed, chefe do movimento al-Mouhajiroun, imã de Finsbury Park e recrutador de numerosos jovens partidos que se juntaram à al-Qaeda, recebeu oficialmente Myatt e desejou-lhe que fosse «bem-vindo ao Islão», precisando aos jornalistas que o passado neonazi do neófito não tinha «nenhuma espécie de importância, desde que os objectivos fossem convergentes» (6) …
Inspirando-se quer na vulgata de extrema-esquerda clássica quer num mundo «islamicamente correcto» pró-árabe e terceiro-mundista, este novo ódio revolucionário a nível planetário em breve seduziu os últimos militantes anti-judeus e anti-americanos da extrema-direita radical. Assim, na sua declaração de 11 de Fevereiro de 2003, o chefe da Al Qaeda não atacou somente esta sombra negra da extrema-esquerda que é «o imperialismo americano-sionista na Palestina», lembrando o «mártir de Vietname», como também, pela primeira vez, autorizou os crentes a aliarem-se a um regime árabe «ateu» e nacionalista: «Se bem que Saddam seja um infiel, passou a ser permitido unirmos as nossas forças às suas para combater a cruzada americana contra o Islão e os muçulmanos.» O próprio Saddam, antigo «pagão» admirador de Nabucodonosor e ateu, não cessou, desde a primeira guerra do Golfo, de islamizar o seu discurso e o seu regime. O ponto culminante desta postura foi a declaração que fez a 4 de Março de 2003, na qual apelava a uma «guerra santa contra os Estados Unidos, os diabólicos invasores», e a uma Jihad que devia opor «os Justos aos mentirosos, os virtuosos aos viciosos, os honestos aos traidores, os combatentes da Jihad aos mercenários e aos agressores» (7).

O Islamismo: a mais eficaz das ideologias «anti-imperialistas» e revolucionárias
Antes de mais, perguntamo-nos o que poderá unir movimentos ideologicamente tão opostos como os Vermelhos (ateus e materialistas), os Verdes (teocratas e islamistas) e os Castanhos (adeptos da luta de raças). Acreditar que uma tal aliança seria filosoficamente impossível e estrategicamente improvável – e, por isso, imediatamente votada ao fracasso – seria esquecer que o islamismo não é apenas o terceiro dos totalitarismos, mas que é, igualmente, em numerosos aspectos, o herdeiro unificador dos dois precedentes. Porque o islamismo não é apenas um simples «fundamentalismo» religioso, mas é também, e sobretudo, um totalitarismo revolucionário subversivo, uma ideologia de destruição em massa comparável ao nazismo, ao maoísmo ou ao estalinismo, o «fascismo verde» prolonga os totalitarismos anteriores. O que o distingue, essencialmente, é que o Verde traz aos ódios totalitários passados uma justificação teológica e uma bênção divina.
Quer se trate do Hezbollah libanês, do Hamas palestiniano, é necessário reconhecer que, no mercado revolucionário mundial, os islamistas e os «mujahedin» arabo-mulçulmanos em geral são os mais eficazes e os mais selvagens adversários do «imperialismo israelo-americano». São eles que infligem maior número de danos às potências «colonialistas» e «capitalistas» – que os Vermelhos e os Castanhos, por seu lado, também detestam.
Terceiro momento do totalitarismo, o islamismo vingador lançado ao assalto às democracias capitalistas e às «forças judaico-cruzadas» conhece uma tal ascensão em todos os azimutes do mundo e, em particular, na Europa – ascensão facilitada pela mediatização planetária sem precedentes que se vive desde o choque do 11 de Setembro – que está a ponto de atrair a si, como um amante, os nostálgicos dos totalitarismos comunista e nazi. Apoiando-se, ao mesmo tempo, na vulgata de extrema-esquerda clássica e num gosto «islamicamente correcto» pró-árabe e terceiro-mundista, este novo ódio revolucionário planetário seduz, a partir desse momento, os últimos militantes antijudaicos e antiamericanos da extrema-direita radical.

Da cruz gamada ao Crescente
A maior parte da extrema-direita virou-se, claramente, para o mundo árabo-muçulmano, conformando-se, assim, ao desejo expresso pelo próprio Hitler no seu testamento, em nome do princípio: «antes islâmico que judaico-maçon» (8). É, pois, tanto por fidelidade ao Führer como em virtude do contexto geopolítico do pós guerra-fria, marcado pelo regresso do paradigma civilizacional, que a nova extrema-direita, já de si visceralmente pró-ocidental e anticomunista, trocou tacitamente o seu atlantismo contra um «terceiro-mundismo de extrema-direita salpicado de antiamericanismo e de anti-sionismo» (9). Esta orientação resulta, naturalmente, no apoio ao islamismo revolucionário. É inegável que o discurso de Alain de Benoist – chefe do Grupo de Reflexão e Estudos sobre a Civilização Europeia (Groupe de Réflexion et d’Études sur la Civilisation Européenne - GRECE), um dos mais influentes clubes de reflexão de extrema-direita europeia e pró-islamista – faz lembrar, curiosamente, a retórica das Brigadas Vermelhas italianas (que, aliás, sempre mantiveram relações com os Castanhos (10)) e depende de um antiamericanismo obsessivo que não chocaria a extrema-esquerda: «O complexo militar-industrial americano do qual George W. Bush, sociopata e notório fraco de espírito, é actualmente o porta-voz, iniciou, de uma maneira unilateral, uma guerra contra a Nação e o povo iraquianos, tão relaxada como monstruosa que nada – exceptuando a sua vontade de dominar o mundo – o justifica. (…) A partir desta quinta-feira, 20 de Março, todo o acto de represálias visando, no mundo, os interesses americanos, bem como o pessoal militar, político, diplomático e administrativo americanos, onde quer que aconteça, qualquer que seja a sua magnitude, quaisquer que sejam os meios e circunstâncias, é, ao mesmo tempo, legítimo e necessário» (11) …
Em matéria de política estrangeira, a denúncia das guerras «imperialistas» americanas contra o Iraque tornou-se, depois de 1990, um dos motivos recorrentes da extrema-direita anti-sionista, que se junta, neste aspecto, à posição das organizações de extrema-esquerda. O Iraque de Saddam Hussein tinha razões para agradar, é verdade, aos partidários dos três totalitarismos: este regime, não só tinha consumado a síntese nacional-bolchevique e nacional-socialista, mas encontrava-se, além disso, na ponta da frente da luta contra os dois demónios que estavam a ser combatidos igualmente pelos Vermelhos, os Castanhos e os Verdes: Israel e os Estados-Unidos. A linha ideológica pró-iraquiana que adoptou a quase totalidade da extrema-direita na Europa traduziu-se por uma série de manifestações que denunciavam o «imperialismo americano», bem como por viagens de solidariedade a Bagdad (12). A captura do ditador desiludiu profundamente os que se tinham oposto à intervenção americana. Esta prisão veio, com efeito, contrariar a sua tese, repetida à saciedade, do «atolamento americano» no Iraque.
Para os movimentos de extrema-direita, a idade de ouro do eixo castanho-verde remonta à Segunda Guerra mundial, que se apercebeu da aliança entre o Grande Mufti de Jerusalém e Hitler, seguida da formação de legiões pró-nazis árabes e balcânicas (Waffen SS muçulmanas, croatas, bósnias e albanesas; camisas-verdes egípcias, etc.). Referência da Irmandade Muçulmana palestiniana, o Grande Mufti, al Hajj al Husseini, esteve na origem, em 1942, da criação da legião árabe, destinada a prosseguir, ao lado das forças do Eixo, a guerra contra os judeus instalados na Palestina. É, aliás, em referência ao Grande Mufti, que o líder neonazi inglês, David Myatt, explica a sua conversão ao Islão e a sua adesão à al-Qaeda, lembrando que «60000 muçulmanos responderam ao apelo do Grande Mufti para se alinharem ao lado de Hitler» (13). Três outras grandes figuras históricas da aliança entre a cruz gamada e o Crescente continuam, até aos nosso dias, a impregnar as consciências de nostalgias do Eixo: Léon Degrelle, o líder do rexismo – movimento colaboracionista belga –, grande artífice da aproximação entre as organizações palestinianas e dos meios neonazis de 1950 a 1980; o célebre banqueiro suíço, François Genoud, herdeiro testamentário de Hitler e Goebbels, que consagrará a maior parte da sua vida pós-nazi a financiar os movimentos terroristas e nacionalistas árabes inimigos do Judeus (nasserismo, FPLP e OLP palestinianas, FLN argelina, Irmandade Mulçulmana, etc.); por fim, um dos principais artesãos da «aliança islamo-nazi», Johann Von Leers (14), o antigo braço direito de Goebbels, responsável pela propaganda anti-semita no III Reich. Depois de adoptar o nome de Omar Amin, no Egipto, após ter sido recrutado por Nasser, que o virá a nomear responsável da propaganda anti-judaica no Cairo, Von Leers irá converter-se ao Islão através do contacto com a Irmandade Muçulmana egípcia. O seu exemplo continua a inspirar toda uma corrente islamófila e pró-árabe de extrema-direita. É em sua memória que um dos actuais chefes de fila da nova direita europeia pró-islâmica, o italiano Claudio Mutti, escolheu como nome de conversão ao Islão o de Omar Amin. Ainda hoje, estes três emblemas do arranjo islamo-nazi são citados como referência pelos jovens militantes neonazis que vêem na aliança castanha-verde a «única hipótese de sobrevivência da Europa ariana» face ao perigo representado pelas «plutocracias ocidentais» e pela «conspiração judaico-maçónica». É, igualmente, em memória da aliança islamo-nazi do Grande Mufti de Jerusalém que os grupos neonazis europeus ou americanos saúdam a acção anti-judaica do Hezbollah ou do Hamas e a força guerreira de Bin Laden. É assim que, no número de Maio-Junho de 2002 da sua revista Até Nova Ordem, os militantes do GUD – que passam regularmente temporadas em Tripoli e em Damasco, a convite do general revisionista Mustafá Tlass, ministro da defesa e editor local dos Protocolos dos Sábios de Sião – louvavam a aliança entre o Crescente e a cruz gamada, desde a época do Grande Mufti até aos nossos dias. O Islamismo e o Nazismo – o qual, não o esqueçamos, se refere ao paganismo germânico – comungam, de facto, de um mesmo ódio da herança judaico-cristã do Ocidente. «Os nossos inimigos são a liga imperialista americano-sionista. Por isso é justo que apoiemos aqueles que têm os mesmos inimigos que nós, isto é, os Palestinianos e os governos líbio e iraquiano. Os islamistas representam uma força multiforme que pode ser uma aliada contra o imperialismo americano-sionista» (15), explica um dos ideólogos deste movimento, Christian Bouchet, chefe de redacção de A Luta do Povo, uma revista que exprime a sua solidariedade tanto para com os «mártires» do III Reich, como para com os da jihad islâmica e do Hamas. «A Europa e o Islão têm em comum o seu inimigo principal (…), a finança usurocrática. Se quer reencontrar a sua autonomia, a Europa deve procurar a sua inspiração e o seu guia na lei divina, tal como está conservada no livro de Alá» (16), prossegue o fascista italiano convertido ao Islão, Claudio Mutti, aliás, Omar Amin. «Assistimos à progressão constante da única força capaz de resistir à hegemonia ocidentalista: o islamismo radical. Duas visões do mundo afrontam-se. Trata-se, pois, de escolher o seu campo (…). De um lado, uma visão liberalo-consumista (…). De outro, uma visão religiosa, identitária e holista: o Islão (…). É, pois, a uma verdadeira jihad que os europeus e os muçulmanos são chamados. Europa-islão, o mesmo combate», explicita um pensador da Nova Direita europeia, Arnaud Galtieri, discípulo do filósofo de extrema-direita convertido ao Islão, René Guénon (17). Prova da dimensão transnacional e europeia da nova orientação pró-islâmica de extrema-direita (18), é em Londres que está sedeado um dos principais centros de proselitismo islamista, o Conselho Islâmico de Defesa da Europa (Islamic Council of Defence of Europe). Esta instituição é animada pelos antigos militantes neonazis. À cabeça, encontra-se Tahir De la Nive, um franco-britânico convertido ao Islão, que preconiza, à semelhança de David Myatt, uma islamização geral da Europa como o único «remédio contra a decadência e o imperialismo americano-sionista» (19). Muito respeitado nos meios «nacionais-revolucionários», entre os skinheads e no seio da Nova Direita, De la Nive, antigo mudjahedin que partiu para combater os «infiéis» soviéticos nos anos 80 do século XX, apregoa uma espécie de «nacionalismo islâmico europeu» e publica uma revista bilingue francês-inglês, Centurio, que «trata de problemas militares no quadro da filosofia islâmica da guerra». Numa obra recente prefaciada por Omar Amin e Christian Bouchet, Os Cruzados do Tio Sam, este ideólogo castanho-vermelho encoraja todos os militantes neonazis a juntarem-se ao Islão revolucionário e denuncia toda a forma de compromisso com as forças «diabólicas» do imperialismo americano-israelita. Outras figuras centrais do fascismo inglês, os dirigentes da União Mundial de Nacionais-Socialismos (World Union of National-Socialists) – Colin Jordan, o «Füher» do Movimento Nacional-Socialista inglês (Nacional Socialist Movement - NSM), e John Tyndall – mantêm, desde 1988, laços com os meios terroristas palestinianos, bem como com o regime de Muammar Kadhafi. Por seu lado, o chefe do Movimento Nacionalista Inglês (English Nacionalist Movement - ENM), Troy Southgate, declarou nas colunas do jornal nacional-revolucionário franco-inglês W.O.T.A.N. - (Will of the Aryan Nations (19a)): «Na Palestina, a crueldade do sionismo é evidente e não podemos deixar de simpatizar com o povo palestiniano que, tal como nós próprios, viu o seu país maculado e derrubado pelo ignóbil parasita que é a judiaria internacional. O ENM saúda o Hamas e apoia totalmente a sua luta armada contra aqueles que se apropriaram, com maldade, da herança ancestral de uma nação inteira» (20). Os casos de militantes fascistas europeus convertidos ao islamismo e ligados a organizações terroristas são numerosos. Para além de David Myatt e Tahir de la Nive no Reino Unido, que colocaram a sua experiência bélica ao serviço da jihad (21), podemos citar o caso de Alessandro Karim Abdul Ghé (22), um dos membros mais antigos do grupo Ordine Nuovo – o equivalente fascista italiano da Ordem Nova francesa – responsável por vários atentados em Itália, entre 1969 e 1973. Discípulo do líder fascista Franco Fredda, Karim Abdul Ghé é accionista da Al Taqwa, uma holding islâmica sedeada em Lugano e acusada, depois do 11 de Setembro, pelo Departamento de Estado americano, de ter financiado a organização de Bin Laden. Outros accionistas e conselheiros da administração da Al Taqwa: o italiano convertido Sante Cicarello, dirigente da União das Comunidades Islâmicas Italianas (UCII) e Ahmed Huber. Este ex-jornalista suíço, neonazi convertido ao Islão, é um dos muitos partidários activos da aproximação castanho-verde. Huber esteve por diversas vezes em Teerão, no tempo do aiatola Khomeiny, e manteve muito boas relações com o governo iraniano (numerosos nazis vêem nos Iranianos os descendentes dos antigos «arianos»).

O Vermelho e o Verde
A aliança entre o islamismo radical e a extrema-esquerda, do ponto de vista desta, foi colocada à volta do projecto terceiro-mundista e revolucionário da Tricontinental (22a) e do apoio à «resistência palestiniana» durante os anos 70 e 80. No contexto da guerra-fria e, sobretudo, a partir da ascensão de Andropov à direcção da URSS, o objectivo da Tricontinental era unir, em torno da União Soviética, as forças revolucionárias marxistas de todas as tendências e forças anti-ocidentais do Terceiro Mundo, em particular as do mundo árabe. Esta nova cooperação Leste-Sul, via Cuba, será o adubo da aliança islamo-marxista, que não parou de se acentuar até ao desenvolvimento da Intifada Al Aqsa (22b), da operação americana no Afeganistão e da segunda guerra do Golfo, momentos-chave da reactivação do eixo vermelho-verde. Do ponto de vista doutrinal, é verdade que o islamismo e o comunismo partilham um mesmo universalismo conquistador e um mesmo «messianismo dos pobres»: «O bolchevismo combina as características da Revolução Francesa com as da actividade do Islão. O Islão e o bolchevismo têm uma finalidade prática, social e material, cujo único objectivo é estender o seu domínio pelo mundo», explicava Bertrand Russell (23). A idade de ouro da aliança islamo-esquerdista será representada pelos campos de treino palestinianos do Líbano (Bir Hassan, Tall al Zaatar, etc., nos quais os voluntários de extrema - Danados da Terra - esquerda irão instruir os futuros islamistas do movimento Amal e dos revolucionários iranianos) e pela revolução islâmica iraniana, saudada, numa primeira fase, por toda a extrema-esquerda ocidental. O arranjo vermelho-verde foi, de facto, particularmente encorajado no início da revolução dos mullahs: é o imã Ali Shariati – tradutor do ideólogo revolucionário Frantz Fanon, próximo de Jean-Paul Sartre – que levou a Komeiny, em 1978, a combinação socialista-islamista, da qual viria a surgir a vitória simbólica do ayatollah: este virá a ser apoiado na sua empresa pela extrema-esquerda iraniana. É também a Shariati que se deve a islamização da noção fanoniana de «oprimidos», tornada mustadhafines («deserdados»). Os Feddayins do povo, de inspiração guevarista, como os Mujahedines do povo – movimento radical explicitamente «islamo-marxista», cujos membros, perseguidos no Irão, encontraram refúgio no Iraque de Saddam Hussein – vêm a inspirar-se nestas ideias. As convergências vermelho-verde explicam a razão porque intelectuais de renome, como os filósofos Michel Foucault, Simone de Beauvoir ou Jean-Paul Sartre, quiseram ver na revolução islâmica de Khomeiny uma «surpresa divina que recordava qualquer coisa que o Ocidente tinha esquecido, isto é, a possibilidade de uma espiritualidade política» (Foucault, Corriere della sera (SERA), Outubro de 1978). Jacques Madaule descreverá a revolução khomeinista como «um clamor vindo do fundo dos tempos, o clamor de um povo que recusa, uma vez mais, a servidão, as algemas que o estrangeiro lhe traz.» Da conversão do ex-marxista Roger Garaudy ao novo combate islamista revolucionário de Carlos, as passarelles islamo-comunistas estarão repletas, como no caso da ligação entre o islamismo e a extrema-direita, com o anti-sionismo e o antiamericanismo, em forma de traços de união. Agrupado com a sobremediatização do conflito israelo-palestiniano – em detrimento de tantos outros conflitos no mundo –, esta atitude antiamericana e anti-sionista, à qual a guerra anglo-americana contra Saddam e o apoio americano a Sharon deram um novo vigor, encontra-se na origem de uma nova vaga de radicalismo anti-ocidental que chega ao ponto de justificar a opção terrorista perante o «imperialismo americano» ou ao «fascismo israelita». Em nome do silogismo segundo o qual a América e Israel encarnariam «o Mal absoluto», do qual os povos arabo-muçulmanos do Terceiro-Mundo seriam as «vítimas por natureza», é então o islamismo anti-ocidental e anti-sionista que surge, para os defensores vermelhos da causa palestiniana e terceiro-mundista, como a nova «via anti-imperialista» por excelência. Donde o apelo de alguns deles ao apoio aos Talibãs, ao Hezbollah ou à Al-Qaeda, um apelo renovado por numerosos grupos revolucionários e terroristas de extrema-esquerda: desde o Exército Vermelho japonês (que recebe cada vez mais convertidos ao Islão) à Itália das Brigadas Vermelhas, passando pela galáxia de Carlos. No seu recente livro de conversas, o célebre terrorista pró-palestiniano explica que «o Islão adquiriu uma irreversível dimensão política e revolucionária, a qual, desde o desabar do campo socialista, se tornou a principal força de transformação activa das sociedades e de luta anti-imperialista» (24). Pouco depois dos atentados antiamericanos perpetrados em 1998 pela Al-Qaeda em África, já Ilich Ramirez Sanchez declarava ao jornal Jeune Afrique: «A agressão imperialista pretende (…) atrasar a expansão do Islão (…), ao declarar-se contra Ossama Bin-Laden e ao procurar decapitar o renovado wahhabita, que está quase a fazer desaparecer os usurpadores do Nejd e do Hejaz e a libertar os Lugares Santos (…) e a Palestina. (…) Os atentados [da Al-Qaeda] estão na continuidade histórica dos nossos, começados há um quarto de século sobre a terra, no mar e nos ares, contra os sionistas» (25)… Quanto às Brigadas Vermelhas italianas (Brigade Rosse) que reapareceram, nestes últimos anos, do outro lado dos Alpes sob o os nomes de Partido Comunista Combatente (BR-PCC) e Nuclei Territoriali Anti-imperialisti (NTA), criaram igualmente um efeito surpresa quando fizeram apelos aos revolucionários do mundo inteiro para que se juntassem ao terrorismo islamista, saudando «a acção heróica da Al-Qaeda contra o imperialismo americano». Num documento de Março de 2003 que reivindicava, no mais puro estilo marxista, o assassinato do conselheiro do ministro do trabalho Massimo D’Antona, Nadia Desdemona Lioce, um dos cérebros da organização, convidava as «massas árabes e islâmicas expropriadas e humilhadas, aliadas naturais do proletário metropolitano», a «pegar nas armas no seio de um eixo único e internacional, ao lado da frente combatente anti-imperialista, face à nova ofensiva dos governos burgueses» (26). Desdemona Lioce incentivava a tirar as conclusões «político-militares» da «agressão sionisto-americana contra o Iraque» (27) na qual ela via «uma vontade imperialista de abater o principal obstáculo à hegemonia sionista» e «de destruir a resistência palestiniana». A partir do momento em que tomaram o partido dos talibãs e da Al-Qaeda, as Brigadas Vermelhas nunca mais deixaram de se solidarizar com os fundamentalistas do Islão, tendo, durante a guerra contra o regime de Saddam, apelado «a combater, por todos os meios, as pretensões israelo-anglo-americanas». Em França, aquando do desmantelamento, em 1995, da rede Chalabi – uma das mais importantes redes islamistas argelinas da região parisiense –, já se tinha descoberto que um dos instrutores do grupo era um antigo membro das Brigadas Vermelhas italianas convertido ao Islão salafista do GIA (Grupo Islâmico Armado), Rémy Pouthon, aliás, «Youssef».

Dos Vermelhos-Verdes aos anti-mundialistas
Se bem que os principais partidos e as grandes organizações alter-mundialistas tenham denunciado, repetidamente, o fundamentalismo islamista, as opiniões pró-islamistas são cada vez mais expressas correntemente no seio da galáxia trotskista. Por exemplo: a posição defendida por Luiza Toscane, animadora do Comité para o respeito das liberdades e dos direitos do Homem na Tunísia, que explicava, no Rouge, o semanário da LCR, que «não se devia censurar o Islão em vão, pois o islamismo contesta a dominação do Norte nos planos militar, cultural e ideológico» (28). O movimento Socialismo é, no fundo, por seu lado, claramente partidário da opção islamista. No seu texto O Profeta e o proletariado, Chris Harman, dirigente da casa-mãe inglesa desta rede, o Socialist Worker’s Party, tenta absolver os «movimentos de massa islamistas na Argélia ou no Egipto», argumentando que não «se dirigem prioritariamente contra as organizações operárias e não oferecem os seus serviços às fracções dominantes do capital» (29). Após a primeira guerra do Golfo, a denúncia da campanha de George W. Bush contra o «eixo do Mal», associado ao tema do «martírio» dos palestinianos, tornou-se um dos pivots principais à volta do qual gira o eixo vermelho-castanho-verde. Já em 2001, em Paris, na altura das manifestações antiamericanas provocadas pela operação antiterrorista no Afeganistão, os militantes de extrema-esquerda tinham expressado a sua rejeição pelo «imperialismo americano», acentuando «nem Bush nem Sharon». Depois de começar a segunda Intifada Al Aqsa, em 2000, a Europa ocidental assistiu, passivamente, à ascensão de uma nova forma de anti-semitismo reislamizado, sob o disfarce de anti-sionismo e de luta contra o «racismo sionista e o fascismo de Sharon» (30). É assim que o espectáculo inquietante de jovens muçulmanos fanatizados contra Israel e os Judeus, a gritarem publicamente «morte aos Judeus» em manifestações «anti-sionistas», lado a lado a organizações pró-palestinianas de extrema-esquerda, passou a ser banal (31). Apelos ao assassinato, deste género, reapareceriam, durante todo o Inverno de 2002-2003, nas manifestações «para a paz no Iraque», sublinhados por slogans pró-palestinianos apregoados pelos participantes, que empunhavam retratos de Saddam Houssein, bandeiras do Hezbollah e mesmo t-shirts com a efígie de Bin Laden. As manifestações de ódio antiamericanas e anti-israelitas, organizadas pelos membros do «No Global», associam-se, muitas vezes, às dos movimentos trotskistas e de extrema-esquerda – organizações às quais a galáxia alter-mundialista está estruturalmente ligada: todas convergem num mesmo radicalismo americanófobo e israelófobo expresso, de forma recorrente, por personalidades mediáticas como José Bové, o destruidor do McDonald’s e agressor da «má comida» americana, como o prémio Nobel da literatura português, José Saramago, como os economistas Jeremy Rifkin, americano, e Samir Amin, egípcio, ou ainda, como a escritora canadiana Naomi Klein, cuja obra No Logo constitui um dos textos de referência do movimento.
O movimento anti-mundialização é composto por muito tendências diferentes que se reclamam, em geral, de esquerda-radical. Encontra-se aí tanto o «sem-terra» brasileiro, João Pedro Stedile como o linguista americano Noam Chomsky, ou ainda o «primitivista» americano John Zerzan. Temos de distinguir quatro grandes tendências no interior do No Global:
- os anarquistas, os «sem-casa», os «sem-terra» e os «indigenistas», que se referem frequentemente à figura emblemática do subcomandante zapatista Marcos;
- as ONG ecologistas ou «ambientalistas» (Greenpeace, Amis de la Terre, World Wide Foundation), e as associações de luta contra a especulação financeira (como a ATTAC, emanação, entre outras revistas e sindicatos próximos da extrema-esquerda, do Monde Diplomatique);
- os meios religiosos progressistas inspirados na teologia da libertação de Leonardo Boff e Frei Betto; as sucursais católicas anti-sionistas de esquerda, representadas por Emaús (organização do Abade Pierre) ou ainda o jornal Témoignage Chrétien (Testemunho Cristão);
- as organizações trotskistas e libertárias de extrema-esquerda.
Eis aqui o que explica o facto de Toni Negri, ex-ideólogo das Brigadas Vermelhas, ser um dos líderes dos No Global. Depois das contra-cimeiras de Seattle, Göteborg e Davos, é em Génova, em Julho de 2001, que o movimento anti-mundialização beneficiou da mobilização mais intensa, tendo o governo de direita formado por Sílvio Berlusconi em Março de 2001 sido escolhido como alvo privilegiado, devido ao seu pró-americanismo e à aliança do partido de Berlusconi, Forza Italia, com a Aliança Nacional de Gianfranco Fini. Em Dezembro de 2002, o Fórum Social Europeu (FSE) de Florença terminou com uma imponente manifestação antiamericana «para a paz», à qual se juntou a maior parte das organizações de extrema-esquerda, desde a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) ao partido Refundação Comunista, passando pelos Verdes da poderosa Legambiente. Brandia-se, por toda a parte, a efígie de Che Guevara que, de símbolo da luta armada em 1960, foi espantosamente transformado em «herói da Paz». Uma aliança similar do lado do Fórum Social Grego, formado em 2002 e apresentado no Fórum de Florença. Foi aí, ao lado da Coligação de Esquerda e do Progresso (Synaspimos), herdeira de uma cisão do partido comunista (KKE), que os alter-mundialistas gregos reuniram, num grande encontro de antiamericanismo, os diferentes movimentos contestatários saídos tanto das fileiras «anti-racistas», feministas e ecologistas como da frente sindical Pame. Mais recentemente, foi o islamista egipto-suiço Tariq Ramadan, figura carismática das Irmandades Muçulmanas na Europa, quem tentou abrir uma brecha no interior do movimento No Global europeu (32). Negacionismo, antiamericanismo e anti-sionismo: os três pivots do eixo vermelho-castanho-verde europeu. Certamente, à partida, estas duas alianças paradoxais – vermelho-verde e castanho-verde – foram totalmente independentes. Mas acabaram por evoluir em direcção a um tríptico vermelho-castanho-verde que associaram duas questões transversais: o «palestinismo» e o negacionismo. Apenas nesta corrente de pensamento radical – que consiste em deslegitimar o estado de Israel acusando os «sionistas» de terem inventado as câmaras de gás para acelerar a criação do estado judeu – incarna o eixo vermelho-castanho-verde e reúne os protagonistas mais diversos. A retórica negacionista é, de facto, transversal por essência. Começou por volta de 1950, no Egipto, pelo dignitário nazi neo-muçulmano Johann von Leers, sucedida em França pela revista neo-fascista Défence de l’Occident, de Maurice Bardèche (33), renovada por toda a Europa (particularmente em França e em Itália) pela ultra-esquerda trotskista e maoísta (Vieille Taupe em França, movimento bordiguista (em Itália) – sendo que o objectivo, para os esquerdistas, era fazer passar o antifascismo para segundo plano, a fim de poder concentrar os seus ataques sobre o «Estado burguês capitalista» e o «imperialismo americano». As teses negacionistas serão recuperadas pela extrema-direita durante os anos 1980-1990 e, definitivamente, pela galáxia islamista radical, sempre em nome da sacrossanta causa palestiniana. O editor revisionista francês, Pierre Guillaume, uma das figuras da aproximação castanho-verde, que se vangloria de manter relações cordiais com Carlos, nunca parou de estreitar os laços com os meios islâmicos radicais. Encarcerado na prisão da Santé, onde Guillaume lhe fazia chegar a sua revista, o terrorista sul-americano chegou a felicitar o editor pelo seu activismo «anti-sionista». Recorde-se igualmente a longa amizade que unia Carlos ao banqueiro nazi François Genoud (34).

O papel central de Roger Garaudy
Na Suécia, a aliança vermelho-castanho-verde é incarnada pela organização do rival islamista marroquino Ahmed Rami, presidente da União Islâmica sueca. Mestre de obras da conexão islamista-negacionista na Europa, Ahmed Rami publica «Os Protocolos dos Sábios de Sião» e desenvolve a ideia segundo a qual «o islão se encontra actualmente na linha da frente na resistência contra o domínio judaico e pode, hoje em dia, dar resposta aos problemas colocados pelo fracasso da hegemonia judaica ocidental» (35). No site da Internet de Rami, Rádio Islão, os revisionistas Serge Thion e Robert Faurisson mantêm fóruns de discussão regulares nos quais fazem o elogio do grupo terrorista Djihad islâmica. Ahmed Rami colabora igualmente com Ernest Zündel (36), chefe de fila do movimento negacionista neonazi no Canadá, assim como com o revisionista Ditlieb Felderer na Suécia, membro do Congresso de Malmö (37). Numa retórica retirada da extrema-esquerda, Rami explica que «o Ocidente não tem nenhum interesse em apoiar Israel, que constitui o último colonialismo arcaico e o último apartheid. O apoio contra naturam do Ocidente a Israel é o resultado do poder ilegítimo da máfia sionista que decide sobre a política interna e externa de todos os países ocidentais» (38). E Rami menciona Roger («Raja») Garaudy como referência suprema da «resistência ocidental». Este célebre filósofo ex-comunista convertido ao Islão depois de 1980 exerceu um papel considerável na aproximação vermelho-castanho-verde. Os seus escritos negacionistas, anti-sionistas e americanófobos reuniram personalidades tão opostas à partida que os revisionistas Serge Thion e Robert Faurisson (saído das fileiras da extrema-esquerda antes de ser recuperado pela extrema-direita e os islamistas), os militantes «nacionais-bolcheviques», os neonazis, os anti-sionistas radicais de ultra-esquerda trotskista, maoista e bordiguista (39). Nova figura de proa do negacionismo, Garaudy, dirigente de uma organização chamada Retour à l’islam (Regresso ao Islão), recebeu um apoio entusiasta do mundo arabo-muçulmano (o que tinha igualmente sido o caso de outros negacionistas, como Robert Faurissom (49)). Interdita em numerosos países ocidentais, a sua obra Os Mitos Fundadores da Política Israelita difundir-se-ia como um rastilho de pólvora em terra de Islão: com centenas de milhares de exemplares vendidos, Os Mitos Fundadores é um best-seller no mundo-árabe. Não é nada espantoso, por isso, que Garaudy tenha sido recebido como herói na Feira Internacional do Livro do Cairo, a 15 de Fevereiro de 1998. E ele vai aproveitar esta ocasião para denunciar, perante centenas de intelectuais, «o poder sionista que controla 95% dos meios de comunicação ocidentais» (41). Durante o seu processo, em Fevereiro de 1998 (no termo do qual virá a ser condenado a nove meses de pena suspensa e 160000 francos de multa por denegação de crimes contra a humanidade e difamação racial), irá receber apoio, não só de militantes de extrema-esquerda e de activistas revisionistas neonazis, mas também de dezenas de intelectuais e de jornalistas islamistas e árabes. Os religiosos iranianos indignaram-se que se pudesse, ao mesmo tempo, aviltar-se na justiça o «pobre filósofo muçulmano Roger Garaudy» e protestar contra a fatwa que visava o autor dos Versículos Satânicos (42). O sindicato dos jornalistas egípcios tomará oficialmente a defesa de Garaudy ao declarar que ia ser «julgado de acordo com uma lei antidemocrática [a lei Gayssot] que interdita a liberdade de investigação sobre certos aspectos da história da Segunda Guerra Mundial» (43). Desde os países muçulmanos mais secularizados às repúblicas ou monarquias islâmicas mais fundamentalistas, o entusiasmo pelas teses negacionistas de Garaudy – que vêm reforçar uma propaganda pró-palestiniana em plena fase de radicalização – é imenso. Beneficiário, em 1985, do Prémio islâmico Fayçal, entregue pelo rei saudita em agradecimento pela sua acção em favor do Islão, Garaudy foi proclamado o novo arauto da causa anti-sionista (44). Filósofo comunista tornado muçulmano e adulado pela extrema-direita, Roger Garaudy encarna, sozinho, o pivot revisionista à volta do qual convergem os três totalitarismos, vermelho, castanho e verde, em nome de idênticos ódios e aversões obsessivos. Uma convergência neo-totalitária bem mais inquietante que as garantias morais, filosóficas e mesmo eclesiásticas que Garaudy são as «autoridades progressistas» populares, como Noam Chomsky, Abée Pierre, José Bové ou Tariq Ramadan: todas estas personalidades defenderam o autor de Os Mitos Fundadores, cada um à sua maneira, nos samizdats, nos colóquios, nos sites da Internet, nos apelos ao apoio, nos comités de defesa, etc. O caso russo: uma aliança vermelho-castanho-verde descomplexada. Na Rússia, um dos principais movimentos islamistas, o Partido da Renascença Islâmica (PRI), de Gueïdar Djemal, aproximou-se igualmente dos meios revisionistas, ultra-nacionalistas, antiamericanos e anti-sionistas, que se qualificam a si mesmos de «castanhos-vermelhos»: trata-se, principalmente, da esfera de influência de Edouard Limonov (45), chefe de fila do Partido Nacional Bolchevique, e da Front de Salut Russe (Sobor), um «bloco nacional-comunista» que reúne os ultra-nacionalistas de extrema-direita e os nostálgicos do comunismo soviético, cujo representante é o general Alexandre Sterligov. É isto que explica que Gueïdar Djemal, sendo um islamista radical declarado, disponha de uma rubrica regular nas colunas do jornal ultra-nacionalista russo Zavtra, ele próprio influenciado pelas teses euro-asiáticas e nacional-bolcheviques (46) … Elemento essencial do puzzle vermelho-castanho-verde russo: os neo-comunistas ultra-nacionalistas e anti-ocidentais de Guennadi Ziouganov, chefe do PC que se péla por geopolítica e não hesita em propor uma aliança com o islamismo radical para combater o domínio da civilização ocidental e dos Estados Unidos (47). A escola euro-asiática, à qual dizem pertencer Djemal, Ziouganov e os outros «vermelhos-castanhos» russos, considera que o «Islão fundamentalista, com o seu anti-materialismo, a sua recusa do sistema bancário, da usura internacional, do sistema de economia liberal, é um aliado. Os únicos inimigos geopolíticos dos Russos e dos muçulmanos são os Estados Unidos e o seu sistema liberal, cosmopolita, anti-religioso, anti-tradicional» (48), escreve um dos ideólogos deste movimento, o geopolítico Alexandre Douguine (49), presidente do movimento Evrazija e da Associação de Estudos Geopolíticos, que edita a revista Elementy, decalcada da publicação da nova direita europeia, de Alain de Benoist, Eléments. À semelhança dos ideólogos nazis Claudio Mutti ou David Myatt, Gueïdar Djemal explica que o Islão é a única solução que permitiria à Rússia «travar o seu processo de decadência nacional provocada pelo imperialismo ocidental». Ferozmente anti-sionista e anti-semita, Gueïdar Djemal saúda a fusão entre o Hezbollah, o Hamas, o Exército Vermelho japonês, o IRA, a Acção Directa e Carlos, não sendo possível, segundo ele, «nenhum acordo» com o Estado «terrorista» de Israel. Para ele, «o holocausto não passa de uma arma da ordem mundial, com o fim de destruir a única oposição real ao sionismo, que é o Islão» (50). Foi nesta mesma óptica que se organizou, a 2 de Novembro de 2001, em Moscovo, na praça Pouchkine, a manifestação «russo-islâmica verde-vermelha» contra o bombardeamento do Afeganistão pelos Estados-Unidos. Entre as forças políticas presentes estavam o movimento da esquerda russa (marxista-leninista, anti-americana e terceiro-mundista), os «anti-mundialistas» de Boris Kagarlitsky, os nacionais-blocheviques e o PRI de Djemal. Aos gritos de «não toquem no Islão», os manifestantes aclamaram a presença do Mufti Nagigoula Achirov, chefe da Direcção Espiritual (DSM) da Rússia asiática e do Mufti dos muçulmanos de Orenbourg, Islamil Shangariev. No seu discurso, Gueïdar Djemal lembra que o ayatollah Khomeiny depôs o Xá do Irão graças à aliança entre islamistas xiitas e os comunistas, lembra que o Hezbollah foi aliado do FDLP face «às metástases israelitas» e ainda que numerosos dirigentes talibãs tinham sido, outrora, antigos quadros marxistas… Bem entendido, durante o Inverno 2002-2003, os vermelhos-castanhos-verdes russos organizaram outras manifestações anti-americanas no decurso das quais os «integristas sionistas», como Paul Wolfowitz eram acusados de serem os responsáveis da política «criminal» conduzida por George W. Bush.

Uma retórica em via de banalização
No que respeita a extrema-direita, a sua posição anti-americana e pró-árabe foi englobada num duplo objectivo: alargar o seu eleitorado ao aparecer como «anti-racista» – dado que se apresenta pró-árabe – reciclando o anti-semitismo (o que arrasta sempre eleitorado), não através de uma retórica judeófoba explícita mas, pelo contrário, pelo contrário, através de uma «solidariedade» completamente progressista em relação às «vítimas» arabo-muçulmanas das «manigâncias dos Judeus».
Quanto aos partidos de extrema-esquerda, aos movimentos anti-mundialização e à esquerda anti-imperialista em geral, parecem ter trocado os seus tradicionais anticlericalismo e ateísmo militante por um comunitarismo pró-islâmico que traduz a sua vontade de conquistar novos eleitorados «proletários» e «deserdados» originários do Terceiro Mundo – e isto, na altura em que o marxismo ortodoxo, vencido pela História, seduz menos. Esta reorientação é favorecida pelo contexto geopolítico mundial que vê o nacionalismo árabe – então aliado da URSS – ser recuperado pelo islamismo revolucionário transnacional (que não é mais do que uma versão islamizada do internacionalismo revolucionário marxista). Uma vez mais, o terrorista e ideólogo marxista-revolucionário por excelência, que foi Carlos, exprime perfeitamente esta mutação: «Oussama Bin Laden, ao fazer frente aos imperialistas ianques, tornou-se o herói de todos os oprimidos, sejam eles muçulmanos ou não (…). Hoje em dia, falta aos homens um novo internacionalismo, poderosamente unificador, que faça a fusão entre o ideal moral e a dimensão sagrada com a arquitectura conceptual e teórica do movimento social revolucionário (…)» (51).
As duas guerras anglo-americanas contra o regime de Saddam; a política conduzida por Ariel Sharon com o apoio de Washington; a vasta operação de represálias que se seguiram ao 11 de Setembro e que terminaram com a derrota dos talibãs: estes diferentes episódios do pós guerra-fria não cessaram de cristalizar os ressentimentos anti-americanos de «revolucionários» de toda a espécie, dos «anti-imperialistas» de extrema-esquerda aos anti-sionistas de extrema-direita, passando pelos incontornáveis «No Global», atacantes do «unilateralismo americano». Estranhamente, a mobilização anti-americana e anti-guerra tinha sido muito menos seguida na altura da guerra do Kosovo, em 1999, apesar de esta ter sido uma operação comparável à que foi montada contra Saddam em 2003. Em França, por exemplo, apenas a extrema-direita, a extrema-esquerda, os soberanistas, os intelectuais independentes e alguns ultra-pacifistas criticaram a intervenção da Nato conduzida sem o aval da ONU; quanto às massas de jovens e aos partidos moderados, ou não se pronunciaram, ou tomaram uma posição clara a favor da guerra.
À luz da nossa grelha de leitura que põe em foco a força de atracção particular das contestações fundadas sobre a legitimidade islâmica e a vitimização arabo-palestiniana, não surpreende que as vítimas afegãs, iraquianas e palestinianas dos Satãs americano e israelita suscitem mais compaixão que as vítimas jugoslavas da diplomacia de Washington. Os Sérvios – ao contrário dos Bósnios muçulmanos – eram demasiado parecidos com os judaico-cristãos ocidentais para suscitar a compaixão dos novos terceiro-mundistas.
Vista, pelos os Vermelhos, os Castanhos e os Verdes, como uma oportunidade para uma vitória inesperada, a crise iraquiana permitiu recuperar as posturas anti-sionistas e antiamericanas mais belicistas, democratizar e mesmo tornar respeitáveis as posições mais extremas. Esta crise voltou a dar, directa ou indirectamente, uma nova legitimidade popular e mediática a velhos rancores totalitários. Do mesmo modo pode-se levar a sério a declaração feita por Illich Ramirez Sanchez, a partir da prisão de la Santé, onde se encontrava: o ideal revolucionário anti-imperialista não está morto. Para lá do agrupamento das brigadas totalitárias vermelhas, castanhas e verdes, ele penetra, então, no campo, outrora refractário, do politicamente correcto e dos bons sentimentos. O anti-ocidentalismo mais excessivo é agora banalizado, tolerado, até mesmo muitas vezes aceite desde que se traduza retoricamente em antiamericanismo e em anti-sionismo defensivos. Se faltava uma prova, as recentes declarações do dirigente malaio Mahathir Mohamad – apesar de reputado inimigo dos islamistas – nas quais mostrava o seu desejo de uma espécie de revolução islâmica anti-ocidental e denunciava a conspiração judaico-maçónica mundial» – foram o testemunho mais evidente: certos chefes de estado ocidentais presentes, então, na cimeira da OCI (Organization of the Islamic Conference), em Putrajayal, a 19 de Outubro de 2003, acharam por bem não se indignar! (52)
O Iraque, verdadeira bomba geopolítica e civilizacional que arrisca inflamar o mundo e encorajar o choque de civilizações entre o Islão e o Ocidente e que os Vermelhos, os Castanhos e os Verdes desejam para conseguirem levar a bom termo as suas respectivas revoluções, tornou-se o novo destino da jihad dos islamistas do mundo inteiro (veteranos do Afeganistão, da Tchetchénia, da Bósnia, mujahedin árabes, etc.). Mais do que nunca, os Ocidentais devem mostrar-se determinados e unidos para fazer frente à nova ofensiva da Al Qaeda e para restabelecer a paz e a estabilidade, tanto no Iraque como nos territórios ocupados (pois «a estrada de Bagdad passa por Jerusalém», diz um ditado árabe). Os terríveis atentados anti-judaicos e anti-britânicos perpetrados em Istambul, a 15 e a 20 de Novembro de 2003, serviram de aviso sangrento aos Ocidentais: o recente recuo das forças vivas da Al Qaeda no Iraque – país fronteiriço da Turquia, portanto, de um candidato à entrada na União Europeia – significa que os terroristas islâmicos procuram investir no ponto fraco do Mediterrâneo e aproveitar a permeabilidade à sua propaganda de uma Turquia reislamizada. Os Europeus não podem mais permitir que se conduza a política de avestruz: o perigo nunca esteve tão iminente.

* Géopolitologo, autor de, entre outras publicações: Guerres contre l'Europe, Éditions des Syrtes (versão reactualizada, Outubro de 2001, edição portuguesa Guerras contra a Europa, Hugin, 2001); Le Totalitarisme islamiste à l'assaut des démocraties, Éditions des Syrtes, 2002 ; La Turquie dans l'Europe, un cheval de Troie islamiste?, Éditions des Syrtes, 2004. Os artigos de Alexandre del Valle estão disponíveis no site: www.alexandredelvalle.com.

(1) Veja-se o seu livro de conversas: Carlos, L'Islam révolutionnaire, textes et propos présentés par Jean Michel Vernochet, Éditions du Rocher, Paris, 2003.
(2) Carlos, op. cit., p. 96.
(3) Alain Gresh, Tariq Ramadan, L'Islam en questions, Sindbad-Actes Sud, 2000, p. 29.
(4) Carlos, in Jean Michel Vernochet, op. cit., p. 91.
(5) Ver a página da Internet de David Myatt: http://www.geocities.com/davidmyatt/
(6) Amardeep Bassey, «Midland Nazi turns to Islam», 16 de Fevereiro de 2003, IC Birmingham. Icnetwork.
(7) Le Monde, 6 Março de 2003.
(8) Adolfo Hitler declara no seu «Testamento», relatado por Martin Bormann: «Todo o Islão vibrava quando as nossas vitórias eram anunciadas. […] Que podíamos nós fazer para os ajudar […], como teria isso sido o nosso interesse e o nosso dever? A presença dos Italianos ao nosso lado […] criava um mal-estar nos nossos amigos do Islão, e [essa presença] impediu-nos de jogar uma das nossas melhores cartas: levar à sublevação os países oprimidos pelos Britânicos. Esta política teria suscitado o entusiasmo em todo o Islão. É, com efeito, uma particularidade do mundo muçulmano que, o que acontece a uns, seja de bem seja de mal, é sentido por todos os outros. […] Os povos regidos pelo Islão estarão sempre mais próximos de nós que a França, não obstante o parentesco de sangue»… Testamento de Hitler, Quartel General do Führer, de 4 de Fevereiro a 2 de Abril de 1945, prefácio de François Genoud.
(9) Christophe Bourseiller, La nouvelle extrême droite, Éditions du Rocher, p. III.
(10) Christophe Bourseiller lembra que «um dos líderes históricos do movimento terrorista das Brigadas Vermelhas italianas, Renato Curcio, começou a sua carreira política no movimento Jovem Europa», ligada ao GRECE (movimento intelectual europeísta). La nouvelle extrême droite, op. cit., p. 115.
(11) Comunicado transmitido aos membros do GRECE por Alain de Benoist, o próprio presidente deste grupo, a 20 de Março de 2003.
(12) Citamos a viagem de membros da associação SOS Enfants d'Irak (SOS Crianças do Iraque), dirigida por Jany Le Pen, a mulher do presidente da frente nacional Francesa (a 2 de Fevereiro de 2003). Esta peregrinação seguia de perto aquela que fora organizada por iniciativa da Association des amitiés franco-irakiennes (Associação de amizade franco-iraquiana), dirigida pelo escritor soberanista radical Philipe de Saint-Robert e o activista neofascista Giles Munier (a 12 de Janeiro de 2003). Denominada «Um avião para o Iraque», a operação foi organizada em cooperação com a ONG Enfants do Monde (Crianças do Mundo). Gilles Munier assegurou a tradução em França da primeira «obra literária» de Saddam Houssein, Zoubeida et le roi (Éditions du Rocher). Este antigo membro do GRECE escreveu no Nação Europeia, órgão do movimento nacionalista-revolucionário Jovem Europa. É desta organização de tonalidade neofascista e violentamente anti-israelita que saiu o primeiro militante europeu morto nas fileiras da Fatah; e não esqueçamos as visitas recorrentes do austríaco Jorg Haider a Bagdad. Chamamos igualmente a atenção para o facto de outras correntes de extrema-direita europeia terem estado presentes do encontro em Bagdad, em Fevereiro de 2003, nomeadamente os antigos militantes do GUD (Grupo União Defesa, movimento neonazi estudantil francês); os animadores do diário italiano Rinascita, que se foram manifestar diante da sede dos inspectores da ONU em Bagdad; o Movimento Social Republicano espanhol; o Movimento para a Nação belga; ou ainda a rede radical francesa (a antiga Unidade radical, um grupozeco que se desagregou após o atentado cometido por um dos seus membros, Maxime Brunerie, contra Jacques Chirac, a 14 de Julho de 2002). Denunciando em coro a «agressão imperialista no Iraque», estas organizações insistiram em sublinhar «os importantes pontos de convergência entre a ideologia baasista e o nacionalismo revolucionário». Ver «Des soutiens d'extrême droite pour Saddam Hussein», Actualité Juive, 13 de Fevereiro de 2003.
(13) Ver o site da Internet de David Myatt: http://www.geocities.com/davidmyatt/
(14) Membro do partido nacional-socialista e da SS, protegido por Alfred Rosenberg, Johannes Von Leers vem a tornar-se amigo pessoal do Mufti de Jerusalém. Cf. Patrice Chairoff, Dossier néo-nazisme, Ramsay, 1977, p. 450.
(15) Christian Bouchet, « Pourquoi avoir créé Unité Radicale », artigo surgido no antigo site da Unité Radicale, actualmente encerrado.
(16) Il musulmano, Janeiro-Fevereiro de 1994.
(17) Cf. Vouloir (revista de geopolítica belga, próxima da Nova Direita), número especial sobre o Islão, de Julho de 1992. René Guénon, filósofo tradicionalista convertido ao Islão, foi o principal inspirador dos convertidos e dos defensores do islamismo radical no seio da extrema-direita europeia.
(18) Ver a obra de Christophe Bourseiller, La nouvelle extrême-droite. Op. cit.
(19) Cf. Alexandre del Valle, Le Totalitarisme islamiste à l'assaut des démocraties, Paris, Syrtes, 2003.
(19a) Testamento das Nações Arianas (N.T.).
(20) Troy Southgate, conversas em inglês no jornal W.O.T.A.N., N°10, Fevereiro de 1997. Ver também W.O.T.A.N. na Internet: http://www.geocities.com/CapitolHill/2286.
(21) Perito em artes marciais e em acções militares, Myatt é autor de numerosos manuais de terrorismo.
(22) «Il ruolo del nazista Ahmed Huber», Corriere della Sera, 25 de Novembro de 2001.
(22a) A Conferência Tricontinental, realizada em Havana, em 1966, foi um movimento de países do Terceiro Mundo, com o objectivo de lutar contra o apartheid, a globalização, o imperialismo, o colonialismo, o neoliberalismo, entre outros (N.T.).
(22b) Sublevação palestiniana, também designada como segunda Intifada, iniciada em Setembro de 2000. A primeira fora em 1987 (N.T.).
(23) Bertrand Russell, Theory and practice of Bolshevism, Londres, 1979, pp., 5- 29-114.
(23a) «Damnés de la terre» é parte do 1º verso do hino «A Internacional». Também em 1961, Franz Fanon publicou o influente livro «Os Danados da Terra», verdadeiro manifesto anticolonialista, com prefácio de Jean-Paul Sartre.
(24) Carlos, in Jean Michel Vernochet, op. cit., p. 92.
(25) «Carlos: Les Américains, Ben Laden et moi », Jeune Afrique, N°1966, 15-21 de Setembro de 1998.
(26) Comunicado reivindicativo do assassinato de Massimo D’Antona, a 22 de Março de 2003. Nadia Desdemona Lioce foi presa a 2 de Março de 2003, na sequência de um tiroteio no comboio Roma-Florença e redigiu este texto na prisão.
(27) Ibid.
(28) La Repubblica, 25 de Março 2003.
(29) Texto citado em: «Extrême gauche et islamisme: du rejet à la compréhension », Actualité Juive, 13 de Fevereiro de 2003.
(30) Cf. as obras de Pierre-André Taguieff, La nouvelle judéophobie, 2002 ; Emmanuel Brenner, Les territoires perdus de la République, Mille et une nuits, 2002 ; Shmuel Trigano, L'ébranlement d'Israël, Seuil, 2002.
(31) Cf. «Comment les jeunes beurs sont gagnés par la judéophobie», Le Monde, 12 de Abril de 2001.
(32) Apesar de uma polémica declarada no seio do movimento ATTAC, que dirige o FSE, Ramadan foi finalmente integrado no grupo e animava, na manhã de 15 de Novembro, em Évry, uma mesa-redonda do Fórum Social Europeu consagrado à «islamofobia».
(33) Editado em França pela Fallois.
(34) Em homenagem aos mártires muçulmanos e aos meios pagãos neonazis, Carlos escreverá a este último, da sua prisão da Santé, em Paris, pouco antes da sua morte, a 18 de Março de 1995: «Se alguma vez nos voltarmos a encontrar, esperaremos o Walhalla dos revolucionários e partilharemos momentos de cumplicidade com os nossos queridos mártires já desaparecidos» (o Walhalla é o paraíso dos Vikings ao qual se referiam os ideólogos nazis).
(35) Ver o site www.radioislam.com.
(36) Ernst Zündel está ligado a Ditlieb Felderer na Suécia e a Robert Faurisson em França. Ambos o apoiaram na altura do seu processo por revisionismo et incitação ao ódio racial, em Janeiro de 1995.
(37) Nascido em 1941, Ditlieb Felderer, aliás, Wiliam Clover, é um dos responsáveis pelo Journal of Historical Review, com sede na Califórnia. Na Suécia, edita um jornal antisemita, Jewish Information.
(38) Ibid.
(39) Na revista da Vieille Taupe, o editor revisionista Pierre Guillaume explica, sob o título explícito «Contra a guerra imperialista americana e o belicismo sionista», que a guerra americana no Iraque é o «resultado de uma conspiração sionista» e que se encontram, entre os organizadores da cerimónia de 22 de Agosto de 2002, que comemora a deportação para Auschwitz de milhares de judeus franceses, «estas mesmas personalidades sionistas fanáticas que militaram a favor da primeira guerra do Golfo (1991), [e que] apoiam, hoje, os projectos monstruosos de George W. Bush de ocupação do Iraque, que podem provocar uma terceira guerra mundial». Cf. « Contribution à la définition de l'unité des programmes révolutionnaires », Cercle des derniers Zimmerwaldiens et Kienthaliens, Vieille Taupe, Janeiro de 2003.
(40) Na altura da primeira guerra do Golfo, Robert Faurisson escreveu ao responsável pela mesquita de Paris da época, Tedjini Haddam, para lhe expressar o seu «apoio ao povo árabe oprimido pelo imperialismo americano-sionista», bem como à embaixada do Iraque. Anexou à sua carta o primeiro número da Revista de História revisionista (onde figura um artigo do tunisino Mondher Sfar, autor do Manifeste judéo-nazi d'Ariel Sharon, 2001), bem como uma declaração para ser assinada pelos intelectuais e pelos responsáveis muçulmanos. Faurisson assegura «ser sensível à prova particularmente trágica suportada pelo Iraque», bem como às vicissitudes sofridas por «todos os povos do mundo árabo-muçulmano […], à excepção, talvez, da comunidade judaica, em Israel e fora de Israel, que tanto fez para que esta guerra estalasse». Carta enviada ao embaixador do Iraque a 18 de Janeiro de 1991. Cf. site revisionista Aaargh: http://aaargh-international.org/
(41) Cf. Le Monde, 18 de Fevereiro de 1998.
(42) Cf. Libération, 16 de Fevereiro de 1998.
(43) Citado em Valérie Igounet, Histoire du négationnisme, p. 481.
(44) Em França, uma publicação islâmica xiita francófona, financiada por Teerão, A Mensagem do Islão, defende-o: «Garaudy nunca pôs em questão a existência de câmaras de gás; os sionistas estão a mover um processo iníquo a Garaudy, pois a única coisa que o autor contesta é o número de judeus exterminados». Junho de 1996, p.21.
(45) Liminov foi condenado em Fevereiro de 2003, em Moscovo, a 14 anos de prisão por «preparação para terrorismo, apelo a golpe de E

Alexandre del Valle est géopolitologue, auteur de nombreux articles et ouvrages dont "Le Totalitarisme Islamiste" et "Le Dilemme Turc" parus aux éditions des Syrtes.
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